Um copo. Outro e já me rio com maior desinibição.
Atravesso parte de Lisboa na busca de algo, mas o caminho não deixa de ser
peculiarmente divertido.
Golo de Porto, some bar e, não paro
de mexer os pés. Depeche Mode às vezes soa bem, em ocasiões do acaso, não menos
pleonásticas que a própria frase, porque até aqui, nada de novo.
Puff, you´re drunk! It´s okay, you’re having such a nice time...
A
música acaba, apagam as luzes e, de repente, a ideia de regressar ao ninho
torna-se deliciosa. Malditos lençóis!
O carro fica em casa, não faço questão de morrer prematuramente num desastre
desnecessário. O táxi é um luxo ao qual me rendo por vezes, mas não hoje. Night bus It is, then!
Somos 6, perfeito. Corro para os lugares do fundo. Hoje são nossos! Eram. Ele
atrasa-se a entrar no autocarro, ela prende-se com qualquer coisa, elas
conversam e, os lugares deixam de ser nossos para serem partilhados com outro
grupo, constituído inteiramente por indivíduos do sexo masculino cheios de creolo.
Os meus amigos dividem-se pelos bancos que sobram e pelo chão. Não interessa, a
moral ainda está elevada. A grupeta, que partilha connosco a mesma área do
autocarro nocturno, parece divertida.
Ouvem-se zun-zuns de maxismo, acompanhados
com remates indecifráveis. Entretanto, a X e a Y beijam-se.
Eu começo a ter algum sono e vou-me encostando à janela.
A X e a Y são abordadas por um membro da grupeta. É o menino do coro, deduzo eu
incorrectamente e, vou fechando os olhos, ouvindo como quem não retém a
totalidade da informação.
“São namoradas? Ah sim? Hmm, que giro.” diz ele, vestido de cor de rosa.
Acordo. Estou agora atenta. Parece-me que vem aí uma daquelas viagens
preenchidas. Prossegue em creolo, com os seus amigos,
juntando riso histérico e apimentando a conversa. Volta à carga. “Vocês são
todos pink friends?”.
Ninguém percebe, nunca tinha ouvido tal expressão. Respondemos com gargalhadas
e com um sim geral. Desvalorizando.
A conversa é dada como monólogo, a um certo ponto. Parte proferido em português
arrastado, ainda que claro. Parte em creolo cobardolas,
como lhe chamei.
As injúrias chovem, vêm encriptadas, daí o cobardolas.
Dou por mim num confronto aceso com fracassados da vida. É a distribuição
gratuita de pérolas a porcos da semana, mais precisamente.
Apesar de aceso, formalmente, parece uma animação. Todos nos rimos, de qualquer
uma das frentes. E o autocarro ri-se connosco, pelo menos metade. Temos as
costas quentes, estão do nosso lado.
A temática torna-se pesada. A agressividade aumenta e a grupeta não esconde uma
personalidade colectiva, fortemente caracterizada por um chauvinismo
disfarçado. A aparência Cr7 e relógio moderno é ilusória. Perguntam-nos se
queremos ir para casa com eles. Respondo-lhes que assim não vão longe, vão
perto. Ali à esquina! Nenhuma mulher no seu estado perfeito de consciência e, conhecimento
dos seus direitos, se sujeita a tais estafermos, a menos que seja a sua
profissão. Estou furiosa!
A X e a Y saem na devida paragem. O M sai na seguinte. O nosso grupo fica reduzido
a 3. Saímos daqui a duas paragens.
Eles melhoram o seu jogo. Sentam-se ao pé de mim e tentam tocar-me. Não deixo.
Levanto-me, desvio a besta em forma de homem que tenta levar de mim algo que
nunca teria senão à força. Olho-o nos olhos e digo-lhe palavras que engole com
espanto. Tudo bem perto da sua cara…De igual, para igual, como tanto se tem
lutado por. E acredito que tenha ouvido algo de novo. Senti-o desconfortável.
Não acredito porém que o tenha mudado. Talvez ferido.
Numa qualquer outra noite, estas provocações passariam, entredentes, mas
passariam. Hoje não.
Hoje verbalizei verdades terríveis, que podem fazer-me parecer incompreensiva,
snob, séria de mais. Oh, fuck it! Já
aturei o suficiente! E por mim e por todas as raparigas que preferem, sendo
perfeitamente justificável, encostar-se ao vidro, ligarem o mp3 e fingir que
este tipo de assédios não acontecem com elas, mandei-os à merda.
Não se trata de discriminações a minorias, nada disso. Trata-se de
discriminações bem gerais, que se resumem a transeuntes infortunados com a
dádiva de terem lábios, peito e pernas.
Não se trata também de um feminismo delinquente, provocador. É algo maior. Não
me sinto segura, quanto mais confortável na posição de passiva distraída. É uma
realidade, tal como é uma realidade que enquanto se coordenam milhares de
unidades policiais para a proteção de determinadas elites governamentais, centenas
de autocarros nocturnos sejam todas as noites, arenas de touradas morais,
roubos violentos, desacatos infantis com desfechos sórdidos.
Não me quero armar em sensacionalista rancorosa, quero só expressar o meu
cansaço face a uma luta amarga, que os que não gostam de comer e calar, vão levando,
nestas viagens pós-saída.
…’Till you were not.
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